Estratégias contra o sedentarismo – Muito da obesidade começa nas escolas

Gaúcho que coordenou estudo sobre prática de atividade física analisa a repercussão de sua pesquisa, disseminada no mundo todo

Pedro Hallal, pesquisador

 

Zero Hora – A pesquisa divulgada na revista médica The Lancet percorreu o mundo, através de centenas de publicações. Ao que o senhor atribui essa grande repercussão?

Pedro Hallal – A grande repercussão mundial dessa pesquisa foi a comparação dos efeitos do sedentarismo com os do tabagismo. Tanto que no mesmo dia em que foi lançada, a Associação de Oncologia da Inglaterra fez um comunicado dizendo que as pessoas não interpretassem errado, pensando que poderiam fumar, porque não, fumar continua sendo o maior fator de risco para câncer no mundo. Porém, para nós, cientistas, foi a quantidade de adolescentes sedentários que mais assustou: 80% no mundo não praticam atividade física, entre os adultos o percentual é de 30%. Não esperávamos um número tão alto.

ZH – Por que os adolescentes estão sedentários?

Hallal – Muito do sedentarismo ocorre em função de educação física escolar, que é péssima. No Rio Grande do Sul, por exemplo, algumas escolas sequer têm professor da área da primeira à quarta série. No Ensino Médio, principalmente em escolas particulares, os adolescentes são estimulados a não participar das aulas de Educação Física para dedicar mais tempo de estudo ao vestibular. Temos pesquisas suficientes para afirmar que para aumentar o nível de atividade física da população, especialmente na adolescência, deve-se haver intervenção nas aulas escolares.

ZH – Somente a obrigatoriedade das aulas de Educação Física já seria suficiente para diminuir esse índice?

Hallal – A obrigatoriedade de três aulas semanais seria o ideal. Falo de uma aula de verdade, com progressão de conteúdo, com tempo para a prática do esporte, mas também com um conteúdo dedicado à saúde: como ensinar aos alunos como controlar a frequência cardíaca, quais os exercícios são indicados para cada situação, com atividades práticas, mostrando benefícios a curto prazo – faz um programa de duas a três semanas e mostra para os alunos o que aconteceu com a pressão arterial e outros indicadores.

ZH – A pesquisa mostra que a tecnologia pode ser usada em benefício à prática da atividade física. De que forma?

Hallal – Nós temos que ter estratégias de promoção da atividade física que usem a tecnologia, faz parte da vida moderna e atinge milhares de jovens do mundo todo. O videogame, que sempre foi visto como um vilão à saúde de crianças e adolescentes, na verdade é um incentivador para a prática do exercício. Temos evidências de que jovens adeptos dos jogos eletrônicos praticam mais atividade física e esportes fora de casa. E foi essa aproximação do vídeo game com o esporte que fez surgir os equipamentos ativos, como o Wii, que executa até funções de monitoramento da saúde do jogador.

ZH – O que é pior para a saúde, um adolescente sedentário ou com excesso de peso?

Hallal – Um dos achados de pesquisas mais intrigantes dos últimos anos é a teoria do fatten fit, que traduzindo para o português seria o gordo apto fisicamente. Uma pessoa um pouco gordinha, mas que faz exercício físico, tem uma saúde bem melhor que uma pessoa magrinha que não pratica atividade física. E isso serve para os adultos também, que resolveriam o problema da inatividade com uma simples mudança de hábito. Pode começar aos poucos: vai a pé para o trabalho, mas volta de ônibus; depois de uma semana, 15 dias, começa a ir e voltar a pé; depois caminha um pouco mais rápido. Já faz uma grande diferença e, além disso, estimula atividades em níveis mais intensos.

ZH – E o setor da saúde, pode contribuir no combate ao sedentarismo?

Hallal – Nos postos de saúde, que é onde a maioria da população consulta, recomendar a prática da atividade física deveria fazer parte da rotina. Os exercícios reduzem muito a necessidade de medicamento para pessoas com hipertensão e diabetes. Existem muitos casos de pessoas em estado de pré-diabetes que começam a se exercitar e não precisam usar remédio, além de diminuir muito o risco de virar diabético. O Brasil – um país que está tentando liberar remédio de graça para todo mundo que tem as duas doenças – deveria oferecer atividade física de graça para a população, investindo em espaço físico e academias populares. Certamente se gastaria menos com medicamentos.

ZH – Existe previsão para um novo grande estudo nessa área?

Hallal – Existem vários estudos de ponta na área de atividade física. O principal deles vai começar em 2014, vamos identificar as gestantes de Pelotas com parto previsto para 2015. Depois, vamos monitorar todos os nascimentos da cidade, entre 1º de janeiro e 31 de dezembro de 2015. Esperamos ter entre 4 mil nascimentos. Essas crianças serão acompanhadas para o resto da vida, o que garantirá respostas científicas que nós ainda não temos e que ajudarão na formulação de políticas públicas e na melhoria da qualidade de vida da população brasileira.

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